sexta-feira, 24 de maio de 2013

V

Vez em quando me pego pensando em você, embora não como antes, não com aquela intensidade e nem com aquele desejo. Agora, fico tentando descobrir o que houve, o que mudou, qual é a causa de não mais sentir o que esteve fortemente presente por 16 anos. Então não era amor?

Será mesmo que Renato Russo tem (ele não morreu) razão ao afirmar: “Mas acontece que tudo tem começo; e se começa, um dia acaba: eu tenho pena de vocês.”? Até o amor acaba? Amor eterno é só nos contos de faz de conta?

Vivo exercitando não buscar os porquês e as explicações para tudo, mas desta vez é mais forte que eu. Já convivi ao longo destes anos com a inquietação de não saber a razão pela qual você não atendeu ao meu pedido, causando-me tanta dor. Não é justo ter de viver sem saber o que provocou esta morte, o que motivou o fim deste sentimento tão grande.

Nunca pensei que deixaria de amá-lo. Na verdade, jamais acreditei que fosse possível. Às vezes tinha certeza de que não mais ficaríamos juntos, resgataríamos nossa história, no entanto, sempre estive certa de que o meu amor permaneceria intacto dentro de mim.

Você esteve aqui, depois de meses. Entrou na minha casa, bebeu água, brincou com meu filho, falou comigo, fez piada, e o que eu senti? NADA! Fiquei confusa! Comecei a procurar por você dentro de mim, e cadê? Você havia desaparecido daqui, do lugar tão bonito que habitava em meu coração.

O coração não disparou. A respiração não se alterou. A vontade de estar linda não surgiu. Pode me explicar como isto se deu e não reparei?

Chorava por você, sonhava contigo, cantava e escrevia todo o meu amor, meu desejo, meu tesão, minha saudade... E agora?

O tal encanto se quebrou? Como? Quando? Quem fez isso?

Neste momento, enquanto uno as letras na tentativa de transcrever o que penso, não sinto sua falta. Vejo nossas fotos e nada se modifica em mim. Como isto é possível?

Mais uma vez sem resposta? Novamente sem entender algo? De novo ninguém para me explicar o que ocorre?

O que ainda resiste é o desejo de vê-lo bem como qualquer outra pessoa, já que não desejo o mal a quem quer que seja. As orações também continuam, pois peço a Deus que tenha misericórdia de toda a humanidade.

Será esta a razão do meu desânimo? Então é por isso que há este vazio?  Por este motivo me sinto perdida, sem saber o que fazer, como agir e em que pensar a partir de agora? Por isso tenho me deixado levar pela cansativa rotina?

Então sempre estive enganada, é verdadeiramente possível amar mais de uma vez na vida? Amarei outro homem? Sentirei tudo isso por um homem primeiramente desconhecido? Nossa, que esquisito! Era muita certeza, bastante segurança de que eu tinha razão.

Respostas, onde as encontro?

Acho que ainda quero ter alguém com quem conversar, alguém que depois não use o que eu
disse contra mim.


Abril/2013.


sábado, 18 de maio de 2013

O AVESSO DOS PONTEIROS

Composição: Ana Carolina / Antonio Villeroy

Sempre chega a hora da solidão
Sempre chega a hora de arrumar o armário
Sempre chega a hora do poeta a plêiade
Sempre chega a hora em que o camelo tem sede

O tempo passa e engraxa a gastura do sapato
Na pressa a gente não nota que a Lua muda de formato
Pessoas passam por mim pra pegar o metrô
Confundo a vida ser um longa-metragem
O diretor segue seu destino de cortar as cenas
E o velho vai ficando fraco esvaziando os frascos
E já não vai mais ao cinema
(...)

A idade aponta na falha dos cabelos
Outro mês aponta na folha do calendário
As senhoras vão trocando o vestuário
As meninas viram a página do diário

O tempo faz tudo valer a pena
E nem o erro é desperdício
Tudo cresce
e o início
Deixa de ser início
E vai chegando ao meio

(...)