quarta-feira, 17 de abril de 2013

DESABAFO [2]

Ultimamente, não tem sido apenas nas longas e frias madrugadas que ela chora. À noite, pela manhã ou à tarde, Joana Aparecida derrama ao menos duas ou três lágrimas sem mover-se muito para não chamar atenção, porque nestes períodos ela sempre está num ambiente acompanhada de pessoas conhecidas ou desconhecidas.

Hoje, ela derramou três lágrimas na faculdade: uma no laboratório de informática e duas no banheiro; de maneira rápida e discreta. Está realmente confusa, sem conseguir ordenar os problemas, entregando-se ao desespero, ao cansaço, à desistência, à comida, de forma exagerada. Sente-se mal. Sente-se fragilizada. Sente-se sobremaneira constrangida.

Joana Aparecida sente constrangimento e vergonha por envolver-se com depressão e discursar e escrever sobre Deus, Nossa Senhora e fé. Ela pensa: “Como atingir a intimidade de quem me cerca, de quem me lê, deixando-me vencer por fraqueza, desespero, ausência na missa? Como testemunhar o que não é praticado? Acreditar no amor de Deus e dizer que acredita jamais será suficiente.” Ela sabe que dar testemunho das bênçãos do Senhor é compartilhá-las com as pessoas através das palavras o que é sentido e experimentado, verdadeiramente, sob a Luz do Espírito Santo. É verbalizar a força do poder de Deus sob a intercessão da Virgem Maria. Aí estão a contradição e a pequenez humanas.

Ela tem tantas preocupações, anda tão ansiosa com algo que nem conseguiu identificar de forma concisa, que não consegue enxergar possibilidades, saídas; não consegue acalmar-se para notar os sinais de Deus. Sim, Deus dá sinais aos seus filhos a todo instante, entretanto, para vê-los, é preciso silenciar, confiar, abrir os olhos e os ouvidos, também os do coração.

A moça quer o fim do período da faculdade. Não está feliz no trabalho. Deseja rever seus amigos, os quais sempre estiveram com ela ao longo destes dez/quinze anos. Precisa de mais tempo com seu filho, acompanhar melhor as coisas da vida dele. Quer envolver-se mais com as leituras, os estudos e tudo o que a universidade tem a oferecer-lhe. Mesmo essa universidade cheia de gente esquisita, com bastantes coisas fora do lugar, mas que também tem gente de bem, comprometida e alguns bons espaços físicos.

Joana Aparecida está com um choro acumulado dia após dia, sem espaço para esvaziar-se, sem um colo mudo. Não que não tenha amigos queridos, especiais, bons pra ter ao lado. Falta-lhe tempo e talvez coragem. Assumir fraquezas e angústias não é a coisa mais fácil e simples da vida.

Está difícil em casa, na faculdade, no trabalho. Problemas, problemas, problemas. Todos têm. É verdade. No entanto, a fase está conturbada demais, com um peso absurdo. Ouviu hoje de uma amiga que é melhor crer que tudo de ruim que está acontecendo é apenas antecedente de algo muito bom que está por vir. Joana pretende exercitar esta ideia para seguir em frente.

Talvez este conjunto de palavras não possa ser encarado como um desabafo, mas não há espaço para duvidar de que se trata do que realmente é vivido agora.


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