O banho não foi tão longo
quanto eu gostaria ou precisava, mas foi um deleite. Durante exatos 13 minutos
fiquei sentada, com a água caindo precisamente sobre minha cabeça e chorando,
chorando demais. Naqueles instantes lembrei-me da Xanda e chorei mais ainda de
tanta vontade de ouvir o que ela sábia e carinhosamente me diria diante da
minha tentativa de desabafo. Lembrei-me também das palavras carinhosas do meu
primo-irmão Pablo e de como foi triste e dura a despedida no Cemitério Jardim
da Saudade em Sulacap. Refleti sobre trancar a matrícula na universidade por um
período e me dedicar quase que integralmente ao meu filho e ao meu trabalho. Pensei
nas minhas amigas, nos problemas da minha comadre Marcele e nos bons momentos
com meus amigos.
Impressionante e negativo
como em poucos ou muitos minutos somos capazes de nos prender quase que
completamente ao que está ruim, ao que causa dor e lágrimas de tristeza. Ah,
que desperdício!
Tentei retomar o precário
diálogo com Deus, mas estava com tanta vergonha por querer jogar a toalha e
estar deprimida que desisti.
As músicas tocavam no tablet e algumas mais animadas me
levaram de volta a momentos e situações felizes, divertidos, leves de poucos
anos atrás.
A vida adulta às vezes é
chata demais, com cores sem vida, provoca fortes dores de cabeça e de estômago.
Preocupações, estresses, mais erros que acertos, mágoas, distâncias,
obrigações, cobranças, impurezas, mazelas... Nossa, que cansaço! Felizes,
tremendamente felizes são as crianças inseridas numa família minimamente
atenciosa. Graças a Deus é o caso do meu filho. E confesso nos últimos tempos
adoraria estar no lugar dele: cercado de amor, cuidados e diversão.
O encontro da água do
chuveiro com minhas lágrimas foi intenso e, apesar de tudo que foi citado, me
fez bem. É, chorar permite que as palavras sejam poupadas. Palavras estas
muitas vezes mal ditas, carregadas de aspereza, sentimento de vingança, impiedosas,
egoístas.
O banho acabou. João Pedro
chegou da escola e seu sorriso e abraço de saudade dessa mãe emburrada pelos
cantos e chorosa todas as noites foram suficientes para fazer-me esquecer das
angústias que me acompanham.
Ah, meu filho... meu amado e
lindo filho...

