É difícil ser um menino de oito anos. Faço e penso troços que as crianças da minha idade também fazem e pensam. Entretanto, não tenho pais, elas têm.
Um casal possuía uma relação prejudicial para ambos e para os que o cercavam. Ela saíra de casa após inúmeros conflitos com seus pais. Em certa ocasião, transaram e ela engravidou de mim. Não se cuidou; não me queria, não me quer. Bebeu bebida alcoólica em excesso no decorrer da gestação e, no sexto mês, teve rubéola.
Voltou a morar com meus avós e eu nasci. Ficamos todos morando juntos um tempo – pouco – e ela novamente se foi; deixou-me. Muitas brigas, ofensas e constrangimentos ocorreram e, judicialmente, minha avó conseguiu autorização para me criar.
Amo demais meus avós, meus tios, mas sinto falta dos meus genitores. Dói sobremaneira conviver com essa lacuna, essa ausência. Às vezes penso que deveria pedir a presença e o amor deles...
Comparecem aos meus aniversários, dia das mães e festas nas escolas – já mudei algumas vezes. Ela me visita algumas vezes no mês. Ele só vem quando alguém lhe tira o sossego insistindo para visitar-me. Ambos me aturam, fingem amar-me, fazem tudo relacionado a mim obrigatoriamente.
Falo de amor, carinho, zelo, orgulho por ter-me como filho. Esse relato não posso dar. Ora sinto esperança, ora me sinto egoísta por não ficar satisfeito com meus avós e tios.
Faço acompanhamento psicológico, pratico esportes e frequento aulas particulares, nada liquida a omissão daqueles que me geraram. Sofro bastante por não saber lidar com minhas angústias, por ter de vestir a camisa de que sou rejeitado por quem não merece – mas tem – meu amor de filho.
Eles não viverem juntos, ou eu não viver com um deles, já não me causa dor; tenho amigos que têm pais separados. Já me conformei em não possuir uma relação estreita com meus irmãos. Só quero aprender a conviver com a falta de carinho e de proteção.
Tenho medo de ficar completamente só. Meus avós já têm mais de sessenta anos, meu tio não cuida de si, meus tios terão seu primeiro bebê no próximo mês.
Sou filho do descuido.
Somos...
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