Madrugada estranha. Quente e fria. Sono instável. Sono? Por
duas horas foi possível dormir. Surge a ideia de escrever, mas com cuidado
porque as lágrimas podem danificar o computador portátil que é emprestado. Quantos
sentimentos. Quantos pensamentos. Tanta dor. Que sensação esquisita de confusão.
Ora os minutos caminhavam, ora corriam. Tudo estava pouco
visível. A penumbra envolvia a solidão da noite. Estrelas? No momento não fazia
diferença se no céu elas estivessem. O ar começou a faltar e a dor da perna a
aumentar. Que dor inconveniente. Volta e meia ela surge sem pedir licença. Será
tendinite? Que importa? A dor do coração, a dor da alma eram muito mais intensas.
Quais são as razões de tamanhas dores?
O pensamento caminha pela amizade. Como dói ser adulto e não
ter a disponibilidade da infância e adolescência. Era tão mais fácil. Passávamos
horas ao telefone mesmo sabendo que à noite nos encontraríamos. Era tão mais
bonito poder rir com os amados amigos que sempre estavam à disposição. Faziam
um bem danado aquelas saídas para beber, comer, rir e dançar. A tristeza era
bastante ausente. Qualquer lugar ficava bom quando a turma estava reunida. Dinheiro
e fatura de cartão de crédito não eram preocupações porque sempre um ou dois
pagavam mais, por que a presença de cada era simplesmente indispensável. Como dói
a distância que briga para ser maior que o amor explícito na amizade. Cada
aniversário era sagrado. Participar dos retiros dentro e fora da Igreja
fortalecia nossa amizade e aumentava nossa fé.
No caminho o pensamento chegou à família. Tão numerosa e com
tanta gente bonita. Há união sim, mas também há inveja, egoísmo e muita
mentira. Gostam da penumbra. A clareza e a verdade são as últimas opções.
Sempre? Não, porém na maior parte das vezes. A história da família Bernardo é
forte e sofrida cujas personagens são guerreiras. Quantos já se foram... Que falta fazem...
Algumas partidas não foram superadas como a do tio André. Ele se foi a mais de
vinte anos e ainda assim dói não o ver nas festas da família. Talvez se aqui
ele ainda estivesse fisicamente esse blogue não existiria ou teria outras
publicações. Talvez eu tivesse um tênis para caminhar com as amigas e andar de
bicicleta com meu filho. Provavelmente eu teria outros inúmeros postais de
diversos países. Certamente não comeríamos tantos ovos ao fim de cada mês.
Talvez me fosse permitido colocar o nome do meu filho de André Luiz. Talvez com
ele não tivesse a necessidade de procurar um médico para ajudar-me a conviver
com minhas tristezas e medos.
Mesmo nessa madrugada esquisita o pensamento alcançou o amor
que foi rejeitado. A memória revisitou os poucos momentos de total felicidade. Ás
vezes nos sentíamos tão bem que o medo surgia. E as noites de amor dos nossos
corações, dos nossos corpos. Ah! As respirações muitas vezes acompanhadas das lágrimas.
Lágrimas de medo daquelas noites terem prazo de validade. O pensamento se
lembrou de detalhes significativos, bons e ruins. As músicas, as cartas, as
ligações escondidas, os beijos inesperados...
Estava tudo misturado. Inúmeras preocupações. Vários
desejos. Até o corpo resolveu reclamar seus necessidades, seus desejos. Mas não
quero atendê-lo de qualquer jeito, com qualquer pessoa. Nunca fui assim e não
quero ser. E as horas foram passando. Só não passaram as dores de dentro. Até a
dor na perna se foi. A luta para pensar em coisas boas era grande, porém mal
sucedida. Pensar na saúde, na vida do filho, nos familiares e nos amigos não
surtia o efeito necessário. Chorar de dor e ter medo era mais fácil.
E o tempo? Ora um aliado ora um inimigo. Como estará minha
vida daqui a dez anos? Meu filho estará bem de saúde e bem nos estudos? Espero
em Deus que sim. Minhas avós estarão vivas? Que grande bênção será. Meu irmão
terá encontrado um bom caminho na vida? Um dos meus maiores sonhos. Eu estarei
com alguém? Casada? Dificilmente. Quase certeza de não. Confesso ter medo dos
mascarados, das pessoas de plástico. Quero estar formada e trabalhando com amor,
humildade, sabedoria e eficácia.
Nessa madrugada foi difícil falar com Deus, foi difícil
rezar. Não por falta de crença mas por falta de força. Por receio de parecer
mal agradecida. Por causa da proporção da angústia. Pedi à Maria para conversar
por mim. Chamei o Espírito Santo para me acalmar e fortalecer. Deu certo!
Tudo doeu. Tudo sangrou. Tanta coisa para sair daqui. Mas
como? Sem direção, sem destino certo? A
quem revelar? Quem pode compreender e dar respostas? É mesmo a melhor opção
procurar um médico? Mas qual? Terapeuta, psicólogo, analista? Quem? Será a única
opção?
Chega! Não quero mais escrever. Não quero mais chorar. Daqui
a pouco o Sol aparecerá. E com ele uma nova chance de ter um bom dia e se Deus
quiser uma noite de sono. Não pedirei nada para a próxima além de conseguir
dormir. Dormir sem sonhar.
Letra de Tom Jobim.
“Confesso que me enganei:
ResponderExcluirNem tudo foi como eu quis.
E a luz dos meus olhos
De prata virou aço e de aço solidão.
Perdi a fé e o caminho:
Nada explica nem consola deixar de existir.
E o mal maior parecia estar,
Não dentro de mim, mas nas mãos de quem tentou me ajudar...”
(M. Bonfá. A Dama do Lago)