Ela estava em casa com seu filho, sua mãe, sua avó e seus
pensamentos. Pensava na greve das universidades, na falta de dinheiro para
coisas simples, nos seus amigos.
Seu primo ligou, dizendo que iam fazer-lhes uma visita. Chegaram.
Tios e primos para jantar, conversar e assistir à tevê. Os primos desceram para
encontrar os colegas e o filho dela fazia graça na sala para chamar atenção dos
adultos.
Ela estava aflita, tensa, de tanta vontade de perguntar por
ele, embora soubesse que não devia, que o certo era permanecer calada,
controlando sua angústia sem permitir que percebessem sua inquietação.
De repente, a mãe pergunta por ele. Sim, por ele – o amor da
vida da sua filha. E a notícia foi a pior. Ela teve de conter as lágrimas, a
sufocação, a dor no peito. Ele está mal, à base de medicamentos de tarja preta,
fazendo “tratamento” com uma psicóloga, ou psiquiatra. A esposa estava piorando
a situação, fortalecendo a doença, a depressão, a fraqueza de seu cônjuge. Egoísta,
dissimulada, vingativa. Ele tentara suicidar-se pela terceira vez em seis meses
e ela nem sabia que houvera uma primeira tentativa. Abandonou a profissão,
pretende aposentar-se aos vinte e nove anos de idade. Fazia próteses dentárias
tão perfeitas...
E ela ali, tendo de disfarçar, tendo de esconder, tendo de
calar o grito que ansiava dizer que alguém tinha de fazer alguma coisa por ele,
abrir-lhe os olhos, acolher. Ela se lembrava das palavras de Martha Medeiros: “disfarçar
a dor é dor ainda maior.” E ela pensava ser esse alguém. Mas como, se eles não
se veem, não se falam, não tantas coisas? O que ela poderia ou pode fazer,
diante de tamanho caos na mente e na vida do seu amor? De que maneira
aproximar-se se ele está cercado por uma mulher que não quer outra coisa se não
acabar com a vida do seu esposo? Se a família é repleta de problemas e desestruturada?
Alguém disse um dia que “quem ama cuida”. Ela quer cuidar.
Ela deseja pegá-lo no colo como das outras vezes em que ele caiu e dizer-lhe
que ele deve e pode contar com ela. Ela só quer salvá-lo. Só quer a felicidade
dele mesmo que não seja ao lado dela. Só deseja fazê-lo acreditar que ainda
vale a pena ficar por aqui e cuidar de si e da linda filha que ele tem com
outra mulher. Quer apenas poder dizer: “mesmo longe, estou com você. Mesmo
quando me pisa o meu amor permanece contigo. Quando cair, quando precisar de um
colo, de um ombro, ligue-me e virei correndo ao seu encontro. Mas por favor, não
desista de você, não desista de viver”.
Os tios e primos se foram. A mãe e a avó foram dormir. Ela
arrumando a cama, fazendo as mamadeiras do rebento, e as lágrimas rolando por
seu rosto sofrido. Só pensava nele. Pedia a Deus uma luz, uma solução, um
caminho que a levasse até ele naquele instante, em pensamento, em oração, com
amor.
Já passavam das 23h, o filho assistia ao filme da “Lilo
& Stitch” e ela secava as lágrimas para que ninguém a surpreendesse
chorando, perguntasse o motivo e ela tivesse de mentir. O filho foi até ela –
que estava no sofá – e a abraçou. Ela não resistiu e chorou no ombro daquela
criança de dois anos de idade como se ele pudesse consolá-la. Como chorou,
soluçou, clamou a Deus.
As horas passaram, o filho adormeceu e ela foi escrever...
O dia seguinte chegou. Ela ia a um evento acadêmico pela
manhã, mas não conseguiu devido a forte dor de cabeça por causa do choro no
decorrer da madrugada. Passara o dia pensando nele, nas terríveis coisas que
ouvira sobre ele...
No fim da tarde foi a um outro evento acadêmico, conseguiu
distrair-se por duas horas, conheceu uma pessoa bacana e em seguida voltou a
sofrer. Foi novamente visitada pela angústia e pela preocupação com seu amado.
Mais uma noite chegou e ela novamente foi escrever, e
pensar, e chorar e orar...
"Quem ama cuida"...
ResponderExcluirReceba o meu abraço, meu carinho e admiração por saber amar de verdade uma pessoa...