sexta-feira, 6 de julho de 2012

QUE MADRUGADA


Madrugada estranha. Quente e fria. Sono instável. Sono? Por duas horas foi possível dormir. Surge a ideia de escrever, mas com cuidado porque as lágrimas podem danificar o computador portátil que é emprestado. Quantos sentimentos. Quantos pensamentos. Tanta dor. Que sensação esquisita de confusão.

Ora os minutos caminhavam, ora corriam. Tudo estava pouco visível. A penumbra envolvia a solidão da noite. Estrelas? No momento não fazia diferença se no céu elas estivessem. O ar começou a faltar e a dor da perna a aumentar. Que dor inconveniente. Volta e meia ela surge sem pedir licença. Será tendinite? Que importa? A dor do coração, a dor da alma eram muito mais intensas. Quais são as razões de tamanhas dores?

O pensamento caminha pela amizade. Como dói ser adulto e não ter a disponibilidade da infância e adolescência. Era tão mais fácil. Passávamos horas ao telefone mesmo sabendo que à noite nos encontraríamos. Era tão mais bonito poder rir com os amados amigos que sempre estavam à disposição. Faziam um bem danado aquelas saídas para beber, comer, rir e dançar. A tristeza era bastante ausente. Qualquer lugar ficava bom quando a turma estava reunida. Dinheiro e fatura de cartão de crédito não eram preocupações porque sempre um ou dois pagavam mais, por que a presença de cada era simplesmente indispensável. Como dói a distância que briga para ser maior que o amor explícito na amizade. Cada aniversário era sagrado. Participar dos retiros dentro e fora da Igreja fortalecia nossa amizade e aumentava nossa fé.

No caminho o pensamento chegou à família. Tão numerosa e com tanta gente bonita. Há união sim, mas também há inveja, egoísmo e muita mentira. Gostam da penumbra. A clareza e a verdade são as últimas opções. Sempre? Não, porém na maior parte das vezes. A história da família Bernardo é forte e sofrida cujas personagens são guerreiras.  Quantos já se foram... Que falta fazem... Algumas partidas não foram superadas como a do tio André. Ele se foi a mais de vinte anos e ainda assim dói não o ver nas festas da família. Talvez se aqui ele ainda estivesse fisicamente esse blogue não existiria ou teria outras publicações. Talvez eu tivesse um tênis para caminhar com as amigas e andar de bicicleta com meu filho. Provavelmente eu teria outros inúmeros postais de diversos países. Certamente não comeríamos tantos ovos ao fim de cada mês. Talvez me fosse permitido colocar o nome do meu filho de André Luiz. Talvez com ele não tivesse a necessidade de procurar um médico para ajudar-me a conviver com minhas tristezas e medos.

Mesmo nessa madrugada esquisita o pensamento alcançou o amor que foi rejeitado. A memória revisitou os poucos momentos de total felicidade. Ás vezes nos sentíamos tão bem que o medo surgia. E as noites de amor dos nossos corações, dos nossos corpos. Ah! As respirações muitas vezes acompanhadas das lágrimas. Lágrimas de medo daquelas noites terem prazo de validade. O pensamento se lembrou de detalhes significativos, bons e ruins. As músicas, as cartas, as ligações escondidas, os beijos inesperados...

Estava tudo misturado. Inúmeras preocupações. Vários desejos. Até o corpo resolveu reclamar seus necessidades, seus desejos. Mas não quero atendê-lo de qualquer jeito, com qualquer pessoa. Nunca fui assim e não quero ser. E as horas foram passando. Só não passaram as dores de dentro. Até a dor na perna se foi. A luta para pensar em coisas boas era grande, porém mal sucedida. Pensar na saúde, na vida do filho, nos familiares e nos amigos não surtia o efeito necessário. Chorar de dor e ter medo era mais fácil.

E o tempo? Ora um aliado ora um inimigo. Como estará minha vida daqui a dez anos? Meu filho estará bem de saúde e bem nos estudos? Espero em Deus que sim. Minhas avós estarão vivas? Que grande bênção será. Meu irmão terá encontrado um bom caminho na vida? Um dos meus maiores sonhos. Eu estarei com alguém? Casada? Dificilmente. Quase certeza de não. Confesso ter medo dos mascarados, das pessoas de plástico. Quero estar formada e trabalhando com amor, humildade, sabedoria e eficácia.

Nessa madrugada foi difícil falar com Deus, foi difícil rezar. Não por falta de crença mas por falta de força. Por receio de parecer mal agradecida. Por causa da proporção da angústia. Pedi à Maria para conversar por mim. Chamei o Espírito Santo para me acalmar e fortalecer. Deu certo!

Tudo doeu. Tudo sangrou. Tanta coisa para sair daqui. Mas como? Sem direção, sem destino certo?  A quem revelar? Quem pode compreender e dar respostas? É mesmo a melhor opção procurar um médico? Mas qual? Terapeuta, psicólogo, analista? Quem? Será a única opção?

Chega! Não quero mais escrever. Não quero mais chorar. Daqui a pouco o Sol aparecerá. E com ele uma nova chance de ter um bom dia e se Deus quiser uma noite de sono. Não pedirei nada para a próxima além de conseguir dormir. Dormir sem sonhar.


 Letra de Tom Jobim.

Um comentário:

  1. “Confesso que me enganei:
    Nem tudo foi como eu quis.
    E a luz dos meus olhos
    De prata virou aço e de aço solidão.
    Perdi a fé e o caminho:
    Nada explica nem consola deixar de existir.
    E o mal maior parecia estar,
    Não dentro de mim, mas nas mãos de quem tentou me ajudar...”

    (M. Bonfá. A Dama do Lago)

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