quarta-feira, 25 de julho de 2012

ELA, ELE E A IMPOTÊNCIA


Ela estava em casa com seu filho, sua mãe, sua avó e seus pensamentos. Pensava na greve das universidades, na falta de dinheiro para coisas simples, nos seus amigos.

Seu primo ligou, dizendo que iam fazer-lhes uma visita. Chegaram. Tios e primos para jantar, conversar e assistir à tevê. Os primos desceram para encontrar os colegas e o filho dela fazia graça na sala para chamar atenção dos adultos.

Ela estava aflita, tensa, de tanta vontade de perguntar por ele, embora soubesse que não devia, que o certo era permanecer calada, controlando sua angústia sem permitir que percebessem sua inquietação.

De repente, a mãe pergunta por ele. Sim, por ele – o amor da vida da sua filha. E a notícia foi a pior. Ela teve de conter as lágrimas, a sufocação, a dor no peito. Ele está mal, à base de medicamentos de tarja preta, fazendo “tratamento” com uma psicóloga, ou psiquiatra. A esposa estava piorando a situação, fortalecendo a doença, a depressão, a fraqueza de seu cônjuge. Egoísta, dissimulada, vingativa. Ele tentara suicidar-se pela terceira vez em seis meses e ela nem sabia que houvera uma primeira tentativa. Abandonou a profissão, pretende aposentar-se aos vinte e nove anos de idade. Fazia próteses dentárias tão perfeitas...

E ela ali, tendo de disfarçar, tendo de esconder, tendo de calar o grito que ansiava dizer que alguém tinha de fazer alguma coisa por ele, abrir-lhe os olhos, acolher. Ela se lembrava das palavras de Martha Medeiros: “disfarçar a dor é dor ainda maior.” E ela pensava ser esse alguém. Mas como, se eles não se veem, não se falam, não tantas coisas? O que ela poderia ou pode fazer, diante de tamanho caos na mente e na vida do seu amor? De que maneira aproximar-se se ele está cercado por uma mulher que não quer outra coisa se não acabar com a vida do seu esposo? Se a família é repleta de problemas e desestruturada?

Alguém disse um dia que “quem ama cuida”. Ela quer cuidar. Ela deseja pegá-lo no colo como das outras vezes em que ele caiu e dizer-lhe que ele deve e pode contar com ela. Ela só quer salvá-lo. Só quer a felicidade dele mesmo que não seja ao lado dela. Só deseja fazê-lo acreditar que ainda vale a pena ficar por aqui e cuidar de si e da linda filha que ele tem com outra mulher. Quer apenas poder dizer: “mesmo longe, estou com você. Mesmo quando me pisa o meu amor permanece contigo. Quando cair, quando precisar de um colo, de um ombro, ligue-me e virei correndo ao seu encontro. Mas por favor, não desista de você, não desista de viver”.

Os tios e primos se foram. A mãe e a avó foram dormir. Ela arrumando a cama, fazendo as mamadeiras do rebento, e as lágrimas rolando por seu rosto sofrido. Só pensava nele. Pedia a Deus uma luz, uma solução, um caminho que a levasse até ele naquele instante, em pensamento, em oração, com amor.

Já passavam das 23h, o filho assistia ao filme da “Lilo & Stitch” e ela secava as lágrimas para que ninguém a surpreendesse chorando, perguntasse o motivo e ela tivesse de mentir. O filho foi até ela – que estava no sofá – e a abraçou. Ela não resistiu e chorou no ombro daquela criança de dois anos de idade como se ele pudesse consolá-la. Como chorou, soluçou, clamou a Deus.
As horas passaram, o filho adormeceu e ela foi escrever...

O dia seguinte chegou. Ela ia a um evento acadêmico pela manhã, mas não conseguiu devido a forte dor de cabeça por causa do choro no decorrer da madrugada. Passara o dia pensando nele, nas terríveis coisas que ouvira sobre ele...

No fim da tarde foi a um outro evento acadêmico, conseguiu distrair-se por duas horas, conheceu uma pessoa bacana e em seguida voltou a sofrer. Foi novamente visitada pela angústia e pela preocupação com seu amado.

Mais uma noite chegou e ela novamente foi escrever, e pensar, e chorar e orar... 




Um comentário:

  1. "Quem ama cuida"...

    Receba o meu abraço, meu carinho e admiração por saber amar de verdade uma pessoa...

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